Terremoto ao vivo e/ou a sociedade do espetáculo

A notícia do terremoto na China, amplamente divulgada em todos os meios, levanta algumas questões. Uma delas é a transmissão do tremor ao vivo. A segunda está atrelada à obra “A Sociedade do Espetáculo“, do filósofo francês marxista, situacionista, estruturalista e pós-estruturalista Guy Debord, morto em 1994.

Enquanto o chão tremia, um estudante do Instituto Jingshan da Universidade de Sichuan, a 100 km do epicentro, protegeu-se embaixo de um móvel do seu quarto no alojamento do campus. Simultaneamente começou a filmar o que acontecia à sua volta, conversando com outro colega, que tentava calçar seus tênis.

Os protagonistas, no entanto, eram trêmulos objetos que caíam pelo chão. Mais: o dono da câmera gritava ao colega para que entrasse online e avisasse outras pessoas. Minutos depois, essa imagem foi vista por milhares de internautas.

Horas mais tarde, os rumores tomaram a região. E donos de celulares na capital de Sichuan espalharam notícias por meio de serviços online, entre eles o Twitter e o Fanfou, redes que permitem postar microtextos de até 140 caracteres.

Que o celular é mais rápido na transmissão de informações, ninguém duvida. É literalmente o telefone sem fio, alusão a uma brincadeira de uma geração que mal imaginava que conviveria com a era da comunicação móvel.

E por que esperar pela oficialização da informação, que precisa de produção e elaboração para a transmissão na mídia televisiva e radiofônica, o que dirá a impressa?

Em situações de emergência, qualquer um se vale do que tem em mãos para pedir socorro. Histórias não faltam. Em artigo publicado no The Wall Street Journal (verssão em PDF) e traduzido para o português pelo Valor Econômico (versão em PDF para quem não é assinante), o leitor lê um depoimento que diz ser pouco provável que as informações divulgadas nesses serviços, como o Twitter, estejam erradas, uma vez que elas servem para avisar familiares e amigos, diferentemente dos blogs que exigem mais tempo para escrever.

Voltando à sociedade do espetáculo da qual fazemos parte e produzimos, a psicanalista Maria Rita Kehl defende no artigo “O espetáculo como meio de subjetivação” muito bem a questão da passagem conceitual da indústria cultural (Adorno) para a sociedade do espetáculo (Debord).

A leitura do texto de Maria Rita Kehl é, mais do que obrigatória, necessária para refletir “os efeitos dessa obra ‘total’ da televisão, transmitida por um veículo que é doméstico, cotidiano, onipresente…”.

Seu artigo foi publicado em 2003, quando as mensagens instantâneas ainda pairavam em um mundo circunscrito de internautas com seus grupos, também conhecidos por infoansiosos.

Logo após vieram as redes sociais, no Brasil, a mais popular delas é a Orkut. Em pouco tempo o celular miniaturizou-se ainda mais e passou a incorporar mais funções, antes restritas ao computador de mesa ou portátil, que incluem fotografar, filmar e estar 24 horas conectado na internet.

Na última semana de abril, a CNN noticiou como James Buck, fotógrafo e estudante universitário, livrou-se da prisão em Mahalla, no Egito, com a ajuda do Twitter, avisando o mundo que estava sendo preso.

No dia do terremoto chinês, outro estudante filma os abalos e posta na web.

Diante desses espetáculos, pinço uma frase do artigo de Maria Rita Kehl, que serve de provocação: “Existir é fazer-se imagem para o outro…”.

6 Comentários

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6 Respostas para “Terremoto ao vivo e/ou a sociedade do espetáculo

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  3. Gustavo, seguramente você é agente dessa história. E a iniciativa da TV Cultura no Roda Viva é inédita, em um meio que procura correr atrás dos internautas numa tentativa de resgatá-los. Não sei se é por aí, mas…
    Isso já aconteceu em outras décadas, basta perguntar a pais ou avós quando a rádio supostamente perdeu para a TV nos anos 50. Acredito que houve uma reacomodação dessas duas mídias. Nenhuma perdeu ou ganhou da outra.
    Será que o mesmo deve acontecer com a TV e a internet?
    De qualquer forma, o Twitter como ferramenta no Roda Viva é um meio de atrair mais espectadores. Aplaudo a iniciativa, assim o seu trabalho, o de Pedro Dória e de Lu Frietas.

    Mari-Jô Zilveti
    twitter: zilveti

  4. O que mais me intriga e empolga nisso tudo, é que eu estou vendo acontecer e melhor, participando, estou entendendo (dentro da minhas limitações) a coisa toda, conforme ela evolui.
    Estou falando disso tudo que vc escreveu, sobre a sociedade do espetáculo, sobre a interatividade frenética, a sociedade que gera conteúdo, que informa que discuti. Isso é muito legal, estou adorando minha nova velha vida digital.

  5. Dani, o tremor de São Paulo eu não senti. Estava na rua, buscando minhas filhas em uma festa.
    Quando fui pra casa, liguei a TV e vi a Pelajo anunciando. Levei um susto. Liguei para meus dois irmãos, minha mãe e meu pai.
    O caçula tremeu nas bases, pois mora no 21º. Em seguida fui ao Twitter e lá estavam todos fazendo seus depoimentos, alguns por terem tremido, outros reclamando não terem sentido nicas, faturando com camisetas, parecia um hype.
    O http://www.tweetscan.com que o diga.

    Beijos digitais,

  6. daniarrais

    é bem isso mesmo. quando teve o terremoto em sp, o twitter foi bem mais rápido em dar a informação (eu li primeiro lá, por exemplo). e essa coisa de os usuários quererem informar a família ou os amigos realmente faz toda a diferença =)