A força objetiva do terremoto e o esforço objetivo dos estudantes chineses

O post Terremoto ao vivo e/ou a sociedade do espetáculo gerou uma análise bastante interessante.
Vem do pesquisador e professor universitário Vicente Gosciola, autor do livro “Roteiro para as novas mídias: do cinema às mídias interativas.” ( Senac, 2008 )
Reproduzo na íntegra e tomei a liberdade de lhe pedir que autorizasse a divulgação de seu-mail, que segue no pé biográfico.

Acho que o texto de Maria Rita Kehl, assim como o
comentário do Eugênio Bucci, em que pese o louvável esforço
em atender às questões da individualidade dos estudos da
comunicação, carece de atualização se quiser se dirigir ao
campo dos meios comunicação que estão surgindo agora. Sua
argumentação ainda está muito presa à idéia de que a única
estruturação de sentido possível depende da interpretação do

inconsciente ou dos elementos significantes de um evento ou
manifestação. Acho que a web 3 tem, certamente, o fluxo
continuo do inconsciente, como tudo na vida, mas ela tem
outra fonte de sentido e que é preponderante na sua
estruturação: a materialidade da comunicação, sua
objetividade (que, também como tudo na vida, não exclui a
sua subjetividade). Veja a força objetiva do fato terremoto
e o esforço objetivo de comunicação dos estudantes chineses.

Por que só haveria neste episódio a subjetividade e a

indústria cultural? A falida indústria cultural é também um

conceito falido, que Kehl chama predecessora da Sociedade do
Espetáculo e lhe reputa toda a responsabilidade por tudo que

se impôs até agora ao dia-a-dia das pessoas em termos de

comunicação, informação e entretenimento. Estou plenamente
de acordo, mas desde a web 2 muita água nova está passando

ao largo do lago de água estagnada dos meios de comunicação

fomentadores da sociedade de controle. É por esse mesmo
sentido que Debord proclamava, mais profeticamente do que
pretendia como ativista situacionista, que havia um modo de
dar voz a qualquer cidadão. Aqui sim, do Situacionismo à web

3, acho que temos um caminho a ser considerado e estudado
como novidade. Concordo plenamente com você Mari-Jô: o
Presente está gritando muito alto as palavras de emancipação
e autonomia para o cidadão comum em termos de comunicação,

exatamente daquilo que as grandes corporações de comunicação
morrem de medo. Sendo assim, acho que temos que buscar novos

instrumentos de análise para compreender tamanho movimento

de emancipação cultural e comunicacional. Como de hábito,
vai aparecer ainda muita gente psicanalisando o movimento
twitter, ou coisa que o valha, como se bastasse, para dar
conta de toda a realidade em questão, colocar o sujeito em

um laboratório higienizado ou em um divã distante anos luz
de discussões sobre a sociabilidade. Nada contra a

investigação sobre a individualidade, mas isso não é
suficiente e nem predominante para compreender o que
acontece nesse início de século XXI, os efeitos do encontro
de movimentos sociais e da cultura da convergência.
Portanto, para ampliarmos o alcance de nossa visão sobre o
contemporâneo e o urgente, eu gostaria de convidar os

colegas da prática e da teoria da Comunicação a trabalharmos
com instrumentos próprios e novos da nossa área.

Vicente Gosciola
Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação Da Universidade Anhembi Morumbi. Doutor em
Comunicação pela PUC-SP. Autor do livro “Roteiro para as
novas mídias: do cinema às mídias interativas
” ( 2a. ed.,
Senac, 2008 ). Publica, pesquisa e presta consultoria nas
seguintes áreas: novas mídias, novas tecnologias, cinema,
vídeo, televisão, comunicação, narrativa não-linear,
narrativa interativa, roteiro, interatividade, TV
interativa, hipermídia, tecnologia e estilo
cinematográficos, cinema brasileiro, edição não-linear
digital, novas tecnologias e sociabilidades, cultura
colaborativa, cultura da convergência, web TV, game, A.R.G.
E-mail: vgosciol@uol.com.br

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